Introdução
A nação, nascida do espírito musical, ou a nação que segue as pisadas de poetas, são só duas definições da fatalidade e da capacidade de formar uma nação - provavelmente são umas definições ligeiramente patéticas para o parecer de estrangeiros, embora ainda geralmente utilizadas - que a literatura possui para os Eslovenos. Como nunca tivemos, salvo no século seis no tempo do estado da Karantánia, o nosso próprio estado, a conservação da língua e ao mesmo tempo a literatura, que sempre servia ao movimento nacional represado como uma lamentação e como uma promessa dum tempo futuro feliz, eram muito importantes para a sobrevivência da nação, causando a elevação dos poetas aos pedestais de profetas. Era mesmo assim também o papel do poeta France Prešeren, romântico da primeira metade do século XIX, cujo poema de brinde tornou-se hoje em dia o hino nacional esloveno. A maneira de escrever esópica e o carácter subversivo da literatura mantiveram-se até a institucionalização da nação em estado no começo dos anos noventa. Também no período depois da II Guerra Mundial quando a Eslovénia figurava como parte da federação jugoslava, que era um sistema entre os totalitários sistemas políticos do leste e os sistemas democráticos do oeste, encontravam-se os literatos entre aqueles que em mais alta voz clamavam e exigiam a democratização. Todos os principais temas políticos, desde o grande massacro de colaboradores das forças invasoras até uma incrível repressão sobre os stalinistas depois da ruptura com o stalinismo no fim dos anos quarenta ou montagens dos processos políticos, encontraram a sua primeira articulação precisamente na literatura. Com a desintegração da antiga Jugoslávia e a independização da Eslovénia democratizou-se o espaço político. A literatura ficou entregue a si mesma e ligada só com si própria e sem missão política, parece que está a perder o seu papel privilegiado, tornando-se sempre mais socialmente marginalizada, também pela razão dos escrúpulos em relação com a literatura original na língua eslovena, que têm as recém-privatizadas casas editoriais pelo feito que as tiragens são como o nosso mercado, limitado com o idioma, - muito pequenas. Ainda existindo hoje em dia a democratização e um maior número dos partidos políticos com os mais variados programas, os literatos que não se têm integrado em nenhuma das esferas políticas, mantiveram a postura de comentaristas críticos da patologia social, mais frequentemente na forma discursiva que na forma literária.
Os começos do modernismo poético esloveno radicam no tempo anterior à II Guerra Mundial, mas as duas obras mais importantes da aquela época eram ou caladas como a de Kosovel ou despercebidas como a de Podbevšek e que por isso não puderam influir essencialmente na produção poética posterior. A inovação e a ruptura apareceram nos tardios anos cinquenta quando se ergue poderosamente a voz da geração que viveu na sua própria pele as atrocidades da II Guerra Mundial, as perseguições, a ocupação, a perda dos mais próximos, e por isso não pôde acreditar na consagração das vítimas, a idéia, integrada na base do sistema monolítico e monopartidário. Eles criavam nos duros tempos da renovação da pós-guerra e das fortes pressões ideológicas, que ditavam aos poetas a maneira de escrever detalhadamente determinada sobre as novas vitórias de trabalhadores e sobre uma nova imagem do mundo, uma imagem brilhante e baseada na utopia. Qualquer outra coisa levantaria suspeitas para o poder: não admira, então, que as publicações das primeiras duas colecções da lírica moderna, “A Herva Queimada” de Dane Zajc e “As Estrelas de Chumbo” de Veno Taufer, eram consideradas socialmente e politicamente (como tudo na atmosfera do ausente diálogo político) inaceitáveis e por isso marginalizadas e publicadas sem qualquer apoio financeiro da parte da sociedade de então. A poesia moderna revelava todas as verdades inquestionáveis como ideológicas e representava por isso uma ameaça para o poder como a única voz diferente que pudesse abrir fendas no sistema monolítico. A literatura parecia subversiva também pelo feito de aparecer acompanhada pela reflexão severa e implorável, pelo ensaísmo sobre as questões sociais ou somente pela leitura aprofundada da produção literária contemporânea, no princípio sem dúvida mais de origem (neo)marxista, publicada em revistas literárias, sobre tudo na “Beseda” (Palavra), na “Revija 57” (Revista 57) e na “Perspektive” (Perspectivas). Nos círculos destas revistas reuniam-se grupos de intelectuais e pintavam nas suas reflexões, inspiradas sobre tudo no existencialismo, umas imagens de mundo menos optimísticas e menos humanísticas. A reacção à esta postura era na maioria dos casos a intimidação dos redactores destas revistas e quando isto não bastava e eles não cediam de uma maneira suficientemente radical, seguiu a supressão e a proibição da revista; mesmo assim a energia crítica e criativa continuava a se reunir ao redor das novas ou renovadas redacções.
Matej Bogataj